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Educação e pandemia: quando é o futuro?

Data da publicação: 22/02/2021
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Começamos 2021 com a sensação de que o mundo mudou completamente. Muitos de nós, talvez, não estamos encontrando nosso antigo lugar neste novo universo de transformações rápidas e duradouras. Em sua obra "A cruel pedagogia do vírus", Boaventura de Souza Santos apresenta algumas lições sobre o cenário de pandemia que assolou a humanidade em 2020. Dentre estas lições está a compreensão de que as relações entre seres humanos e a natureza estão profundamente conectadas com a disseminação de epidemias, mostrando que as alternativas caminham na articulação de processos civilizatórios que busquem uma sociedade mais justa, igualitária e com os ecossistemas em equilíbrio. O autor conclui a sua obra sublinhando que o futuro pode, sim, começar hoje e que somos responsáveis por construir as possíveis vias de transformação das realidades.

No início de 2021, Santos amplia seu diagnóstico, demonstrando que o futuro já começou, e a humanidade pode caminhar por três vias: 1) esperar que tudo volte ao ?normal? como que era antes, não reconhecendo as mudanças necessárias; 2) realizar pequenas ações as quais não causem impactos transformadores em nossa relação predatória com a natureza; ou 3) buscar alternativas que efetivamente nos levem às soluções para o cenário pandêmico a partir de novos modos de ser e conviver.

Diante de tudo o que temos vivido, especialmente no cenário da educação, as relações vêm ocorrendo como Inês Dussel denominou de "classe de pantufas ou de chinelos". Esse conceito retrata a presença da educação formal em espaços privados (salas de estar, quartos, cozinhas, locais de trabalho...).

Hoje, em um 2021 que se inicia, ainda temos tantas incertezas. Será porque apostamos que a Educação seja o melhor caminho, assim podemos trilhar a terceira via proposta por Boaventura? Ou por que pensamos que a Educação é uma ferramenta essencial em um futuro que foi adiantado?

Os diversos cenários revelados pela pandemia mostraram que os espaços onde se faz educação formal (escola, faculdade, universidade...) são insubstituíveis por inúmeros motivos. Essencialmente, estes espaços conectam as gerações ao conhecimento científico, à tecnologia, à pesquisa, à inovação, mas também pela oportunidade de encontro das disciplinas, do conhecimento diverso e plural e do encontro dos sujeitos, com diferentes trajetórias, experiências e com a possibilidade de construírem juntos projetos ricos e alternativas possíveis.

Com creches, pré-escolas e escolas fechadas, sem o espaço universitário com seus múltiplos cursos de Graduação e Pós-Graduação e sem as oportunidades que estes permitem, deixamos de ganhar momentos de convivência, trocas, partilhas, pensamentos, pesquisa e criação. Essas vivências que deixaram de acontecer nos impelem cada dia mais a assumir o interesse e a responsabilidade pelo mundo e a necessidade de aprender a estar com os outros. Precisamos reaprender a conviver, para que nossas sociedades deixem cada vez mais de ser desiguais e para que tenhamos uma diversidade crescente de alternativas para um novo futuro que se desvela.

Ao olharmos para trás e para o agora, enxergamos que a pandemia tem nos mostrado que jamais voltaremos a ser como antes. Voltar ao "normal" seria assumir os riscos dos mesmos problemas que nos trouxeram até aqui. O futuro que começa agora necessita de seres engajados em educar e educar-se para uma nova ética de ser no mundo.

Referências

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Cruel Pedagogia do Vírus. Coimbra: Edições Almedina, S.A, 2020.

SANTOS, Boaventura de Sousa. O futuro começa agora: Da pandemia à utopia. Boitempo Editorial; 1ª edição, 2021.

DUSSEL, Inês. La clase en pantuflas. In. Dussel, I.; Ferrante, P.; Pulfer, D. (compiladores). Pensar la educación en tiempos de pandemia: Entre la emergencia, el compromiso y la espera. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: UNIPE: Editorial Universitaria, 2020. Libro digital, PDF. p.337-348.


Luthiane Miszak Valença de Oliveira

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